Para quem leu meu último artigo, mergulhei um pouco no livro A Teoria U, de Otto Scharmer. Ainda bebendo desta fonte, pergunto: Qual é o papel do líder e do gestor? Enquanto liderança consiste em criar e cultivar o contexto mais amplo, que é o terreno e solo fértil no qual as coisas possam acontecer, a gestão consiste em conseguir que as coisas sejam feitas. Olhando friamente, o único “trabalho” do gestor é mobilizar ação e produzir resultados. Para isso é preciso integrar objetivos, estratégias, personalidades e processos. Mas, como qualquer criação artística, cada etapa da gestão requer um tipo diferente de conhecimento, é aí que o Coach pode contribuir com o gestor.

É muito comum ouvir gestores dizendo que estavam tão imersos nas atividades do dia a dia e tão cheios de responsabilidades, que algo lhes escapou. Quando se tratam de questões importantes e fundamentais, não queremos que nada escape. Para agir em seu contexto de forma consistente, harmônica e efetiva é importante que o gestor tenha em mente o “grande mapa”. Relembrar o foco da gestão, retomar objetivos, delinear estratégias, cultivar personalidades e lapidar processos. Além disso, é preciso debater, consolidar posicionamentos e caminhos a seguir, todas são questões que demandam tempo. Onde estamos? Onde queremos chegar? O que dispomos para atingir nossos objetivos? Quais são as oportunidades e desafios?

Quem estudou administração, logo irá se lembrar da Matriz FOFA – Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameças. Esta é uma das várias sínteses simples que encontramos ao estudar gestão. Na teoria é tão simples e óbvio que chegamos a duvidar da eficácia. Mas, muitas vezes o que precisamos para fazer um bom trabalho é justamente aplicar o simples com capricho. O que é simples na teoria acaba se mostra um pouquinho mais complicado na prática. Com tantos mapas e sugestões, muitas vezes nem mesmo o próprio gestor tem clareza sobre o modelo e estilo de gestão que está adotando.

Portanto, o tempo dedica a um processo de Coaching com essa abordagem profissional, torna-se um investimento! Parece clichê, mas é óbvio. Alcançar a clareza sobre o modelo e estilo de gestão e o mapa sobre o qual se está caminhando, com vistas ao futuro que se pretende atingir é de imenso valor para o líder e gestor que pretende transmitir segurança e confiabilidade a sua equipe. Mas, vamos voltar à Teoria U para falar sobre o que Otto Scharmer sugere, veja a seguir os cinco passos que ele recomenda.

5 passos importantes para o líder

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1- Desenvolver a habilidade de ouvir os outros e o que a vida o convoca a fazer;
2- Ir a lugares de maior potencial e ouvir com a mente e coração abertos;
3- Isolar-se e refletir, permitir ao conhecimento interior emergir;
4- Criar um microcosmo do novo para explorar o futuro na prática;
5- Cultivar ecossistemas de inovação vendo e atuando em um todo emergente.

Toda ideia surge de um único indivíduo, mas para virar realidade existe um longo caminho a ser percorrido, em geral envolvendo outras pessoas. Nos passos três primeiros passos o líder ainda está em uma fase de observação e introspecção, mas depois é a interação que irá contar. O líder tem um papel fundamental, mas também sabemos da essencialidade da participação dos outros. Então, o que nos interessa no escopo deste artigo, são os próximos passos: 4 e 5.

O que é criar um microcosmo para explorar o futuro na prática? Como despertar e desenvolver a inteligência coletiva? Como aprender a partir do futuro à medida que ele emerge? Cultivar um jardim, construir uma casa e conquistar a confiança, são processos que demandam tempo e neste tempo muitos serão os desafios. Então, ao invés de investir todas as fichas em um projeto em fase inicial ou investir toda a energia no primeiro passo de um longo projeto, na confiança de que todos os outros se seguirão como o planejado, porque não criar o projeto como um todo em uma escala reduzida?

Vamos ilustrar isso. Pretendemos cultivar um jardim e nele quereremos árvores frutíferas, flores, lagos, ervas e temperos. Podemos subdividir o projeto em primeiro plantar as árvores frutíferas, depois as ervas, ou podemos trabalhar em uma escala reduzida. Numa parte do jardim plantamos um exemplar de tudo o que desejamos ter. Se queremos construir uma casa, podemos começar por um quarto, que pode conter tudo o que teria na casa, mas de uma forma simplificada. Assim, podemos despertar nosso olhar para os vários detalhes que nos deparamos apenas na prática do projeto.

Como a equipe irá interagir? Como responderão aos desafios? Com quem poderei contar no momento de grande dificuldade? Quais as habilidades de cada um da equipe sobressaíram? Quais os melhores e mais confiáveis fornecedores? Qual a planta que melhor vingou no terreno? Elas realmente se mostraram tão lindas no jardim como na minha imaginação? Qual o custo real do projeto? O quanto às contribuições dos outros participantes da equipe enriqueceram meu projeto inicial? Vale a pena continuar com a ideia inicial ou na prática, outras possibilidades se mostraram mais viáveis e interessantes?

Aprender com o futuro que emerge nada mais é do que intercalar reflexão e ação de forma continuada. Pensar exaustivamente e então agir é uma forma ultrapassada de interagir. Com um mundo que se transforma rapidamente e nos presenteia com novas e melhores possibilidades de comunicação, organização, economia, agir sem pensar é um risco que as pessoas que tem acesso ao mínimo de educação irão se recusar a correr.

O líder e o papel da inovação

O papel do líder e gestor nos tempos atuais

Pensar, agir e não refletir sobre a ação é perda de valor de oportunidade. Pensar, agir, refletir, agir, refletir, é processo de melhor custo-benefício. A sabedoria popular já diz que duas cabeças sempre pensam melhor do que uma. Quais habilidades são necessárias para otimizar o tempo de trabalho conjunto de várias mentes pensantes? Como ativar e acessar a inteligência coletiva?

Muito se tem falado sobre a habilidade de facilitação, processos de facilitação e o benefício dos mesmos. Quem quer desenvolver habilidades e criar momentos para o aflorar da inteligência coletiva pode usar o rico material dos estudos de John Croft e suas metodologias de criação colaborativa, assim como nos cursos de formação de facilitadores do Instituto Ecosocial.

E o que vem a ser cultivar ecossistemas de inovação vendo e atuando em um todo emergente? Aprendizado em rede não é mais uma modinha do mundo da comunicação, é uma realidade social que veio para ficar. Aprender a movimentar-se nesse novo formato de interação é fundamental. Quando pensamos no mundo virtual, nas redes sociais, esse conceito de aprendizagem em rede é de fácil entendimento, porém, quando pensamos no mundo prático e palpável, a questão já fica um pouco mais nebulosa. Entendo cultivar ecossistemas de inovação como essa pré-disposição de valorizar a articulação e interação entre diversos campos de cultivo. Criar os microcosmos, incentivar outros microcosmos e facilitar o diálogo entre os microcosmos é o campo fértil para a cocriação de inovações consistentes.

Afinal, muitas inovações estéreis e voláteis estão ai a nossa disposição diariamente, poluindo e cansando nossos sentidos. Então, como promover e envolver-se com uma inovação que vá de fato servir para a melhoria do nosso dia a dia, para a evolução da nossa humanidade e a melhoria da nossa condição de vida nesse planeta? Sim, é fácil falar, mas não tenho dúvidas de que esse é o caminho, mesmo sendo difícil o fazer. Testar ideias na prática, absorver o máximo de aprendizado e trocar aprendizados, além de construir conhecimento a partir do diálogo, continuar a cultivar e a investir no que é consistente e no que se mostrou viável e válido nos estudos práticos.

Repensar, remodelar, recriar o que não se apresentou viável antes de investir esforços, dinheiro e vidas em um projeto. Enfim, espero que tenha conseguido transmitir a importância do diálogo, tanto no que diz respeito à segurança e confiança pessoal do líder e gestor perante sua equipe, quanto na criação de uma cultura organizacional criativa, contemporânea e ágil. Sim, ágil! Diálogos bem estruturados e direcionados valorizam o nosso tão precioso tempo de vida.

Por Yug Werneck
Atua na Coaching e Desenvolvimento Organizacional Formada em Administração de Empresas pela FGV – EBAPE, com extensão de Design em Sustentabilidade pela Gaia Education e extensão em administração pela EDENZ College (Nova Zelândia). Com formação de Líderes Facilitadores pelo Programa Germinar do Instituto Ecosocial e formação como Coach e Mentora pelo Instituto Holos.