Ao longo da história humana pode-se verificar que todos os povos, em todos os tempos, buscaram alguma forma de explicação para suas origens mais profundas, para além dos limites dos sentidos.

Todos os povos constroem uma visão transcendente. Todos têm alguma forma de expressão religiosa. Toda religião possui um sistema de crenças em algo que transcende os limites de seus sentidos, geralmente envolvendo divindades, deuses, anjos e demônios. As religiões costumam também possuir relatos sobre a origem do Universo, da Terra e do Homem, e o que acontece após a morte. A maior parte crê na vida após a morte.

Comunhão de vida

A grande limitação, contudo, do ser humano é sua imensa capacidade de projetar para o infinito as limitações de sua imaginação, que continua sustentada pelo modo processual de avaliar seu mundo. Por isso projeta para o transcendental figuras representativas de seu universo vivencial : deuses (Deus, anjos e santos) e demônios à sua imagem e semelhança, encarregados de solucionar seus problemas de sobrevivência (alimentação, saúde, segurança, etc.), suas desavenças na convivência familiar, comunitária e nacional (rezas e ofertas em sacrifício para o “meu” ganhar e, em consequência, para “o outro” perder), bem como suas angústias diante do mistério da morte. E,desse modo, as religiões se põem a serviço dos jogos dicotômicos “minha” religião ou “minha” igreja é a verdadeira, as outras são falsas ou menos puras… E assim dificultam, ou até mesmo podem impedir, às pessoas o acesso a uma postura centrada na Reunificação.

O ser humano cria símbolos, cria projeções, cria sonhos. É algo exclusivo dele, nenhum outro animal é capaz de criar utopia. Porque o ser humano vê o real transfigurado. Essa capacidade é o que nós chamamos de transcendência, isto é, transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado. Numa palavra, eu diria que o ser humano é um projeto infinito. Um projeto que não encontra neste mundo um quadro para sua realização. Por isso é um errante, em busca de novos mundos e novas paisagens. A conclusão que tiramos desse fato é que não devemos nos deixar enquadrar por ninguém, por religião nenhuma, por governo nenhum, por ideologia nenhuma, por revelação nenhuma. Por nada no mundo, porque tudo é menor.

O universo de crenças e expressões ritualísticas sempre desafiou e continua desafiando a ciência e a filosofia. A razão humana ou se submete às crenças, gerando toda forma de teologias, ou simplesmente rejeita tudo como formas primitivas de explicação da vida e do universo. Mas a insatisfação continua desafiando a razão.

A vida só acontece no Aqui e Agora, num presente absoluto, onde tudo no universo pulsa simultaneamente. Para dar-nos conta disso, temos que acalmar nossa mente, treinada para o movimento, o processual, apegada às experiências do passado, angustiada frente ao que possa vir a acontecer no futuro. Há que mergulhar no silêncio interior para ouvir o grande SER pulsante, para sentir-se contido no Universo e simultaneamente O contendo. Há que meditar!

Nossa mente é estruturada pelas condições culturais em que é educada, pelos valores e crenças repassados através dos pais, parentes, comunidade, escolas, meios de comunicação. É preparada para buscar os meios de sobrevivência, de reprodução e de convivência com a natureza e o meio humano.

Tudo isso vem acompanhado de muita dor e sofrimento. Sofrimento causado pela fome, pela doença, pela perda de bens, por desfalques, corrupção, insegurança econômica. Sofrimento causado pelas brigas, ciúmes, separações, mortes.

Só podemos encontrar paz e harmonia no momento em que nos redescobrimos unos no universo. No momento em que consigo ver em todos os seres o reflexo da única grande Energia Universal, só então encontro harmonia em mim e nos seres à minha volta.

A profunda tomada de consciência disso nos permite ver de onde parte todo o sofrimento humano: da desunião, da separatividade. Ao ver no outro o reflexo divino que ele é, já o vemos para além de suas expressões limitadoras, como sexo, idade, cor, raça, nacionalidade, partido, religião, e até mesmo para além dos vínculos afetivos. Sentimos pulsar dentro de nós a mesma frequência maior que pulsa no outro.

É somente esta visão que nos permite de fato uma postura prestadia. É somente centrado nesta percepção que nos pomos inteiramente a serviço da Vida. E é só com uma perspectiva transcendente que conseguimos manter-nos centrados diante das dificuldades de convivência, vendo no outro alguém que, da mesma forma, reflete o Todo, de um modo diverso do nosso, mas o mesmo Todo. Ele e nós temos nossos condicionamentos, nossas limitações, sobretudo nossas formas mentais limitantes. Não somos donos da verdade, nem estamos a serviço de algum dono da verdade. A Verdade já está implantada no ser de cada um de nós, que somos reflexos da fonte maior da Verdade. De fato, só podemos ser prestadios de Vida para as pessoas quando nos propomos a caminhar com elas na busca dos melhores meios de acessar esta Verdade interior e, quando muito, instrumentá-las para facilitar-lhes este Caminho.

A partir desta consciência profunda é que compomos a mais fantástica sinfonia universal: a Comunhão de Vida!

Marcos Wunderlich

2018-06-01T22:20:32+00:00